Parece que todo dia uma série sáfica é cancelada.
Quase todas as séries sobre as quais eu já gravei algum vídeo não receberão uma nova temporada: First Kill, Paper Girls, The Wilds, The L Word, I Am Not Okay With This e a minha querida Warrior Nun.
Antes que alguém repita a piada de que essa é uma maldição do meu canal, quero propor uma reflexão. Todas essas séries têm algo em comum: protagonismo feminino e relacionamentos entre mulheres. Ainda em minha defesa, preciso lembrar que gravei dois vídeos sobre Heartstopper e, depois disso, a série foi renovada para mais duas temporadas. Então, será que as sáficas são perseguidas por algum motivo?
Há alguns anos, existia um grande problema na forma como eram retratadas na ficção personagens LGBT+, principalmente as mulheres. Além dessas representações serem muitas vezes negativas e estereotipadas, como em Assunto de Meninas ou Sedução, elas raramente tinham um final feliz. Às vezes por causa de traições ou de outros conflitos parecidos, mas principalmente porque parecia existir um fetiche em matar essas personagens. Aqui no Brasil, em 1998, assassinaram o casal de mulheres, Leila e Rafaela, na explosão de um shopping na novela Torre de Babel. Na TV estadunidense, a realidade não é diferente. Eu não sei se vocês lembram, mas, em 2016, quatro personagens sáficas foram mortas em séries diferentes e de emissoras diferentes no período de um mês.
Por causa disso, naquela época, saiu uma pesquisa que afirmava que quase 10% dos personagens mortos em 2016 eram mulheres lésbicas e bissexuais. Pode parecer uma porcentagem pequena, mas vamos fazer as contas: a representação sáfica em séries já era mínima, ou seja, nesse contexto, 10% representava a maior parte dessas personagens. Foi criado até um conceito em ingles, Bury your gays, ou seja, enterre seus gays, para questionar esse assassinato em massa de personagens LGBT.
Não dá para negar que houve um avanço nos últimos anos, não apenas em relação à quantidade de obras com personagens LGBT, mas também em relação à qualidade dessas representações. Quando o assunto é série, porém, parece que temos um problema: da mesma forma que elas são lançadas, elas também são canceladas quase que na mesma proporção. Como disse no início deste texto, uma das únicas séries LGBT que eu acompanhei nos últimos tempos e que receberá uma nova temporada foi Heartstopper.
Eu gravei vídeos sobre Heartstopper porque eu amo essa história e porque sou apaixonada pelos quadrinhos há muitos anos, mas eu me sinto obrigada a fazer um desabafo: as séries sáficas não recebem o mesmo apoio, nem de pessoas cis e heteressexuais, nem de pessoas LGBT. Pelo contrário, sempre que uma série com protagonismo sáfico é cancelada, eu vejo comentários de pessoas da nossa comunidade, dizendo que essas obras são ruins ou que a culpa é do público que não divulga o suficiente. Pelo amor de deus, uma grande falácia! Não existe facção mais engajada, organizada e apaixonada que a nossa.
Mas tudo bem, eu até entendo alguns desses comentários porque eu também fico tentando encontrar um motivo para tantos cancelamentos. Às vezes, eu tenho a sensação de que parece uma teoria da conspiração acreditar que existe algum tipo de perseguição contra as séries sáficas. Sinceramente, eu não sei se faz sentido. Dentro de uma lógica capitalista, o lucro está acima de qualquer coisa, então por que uma empresa cancelaria uma série que dá dinheiro? Eu só consigo pensar em três possíveis justificativas para um cancelamento: baixa qualidade, crítica técnica negativa ou falta de público. Talvez essas justificativas se apliquem em alguns casos, como em First Kill, por exemplo.
Antes de continuar, eu gostaria de deixar registrado que eu sou defensora dessa série. Crepúsculo também é uma história sobre vampiros com uma narrativa meio fraca e efeitos especiais questionáveis (oi, Renesmee), embora o orçamento dos filmes fosse muito maior. E Crepúsculo foi um fenômeno de audiência porque é bom assistir uma bomba de vez em quando. Nós também merecemos ter nossa própria farofa! Nem toda obra com personagens LGBT precisa ter uma narrativa profunda e uma cinematografia perfeita. Dito isso, sou obrigada a confessar que eu já esperava o cancelamento de First Kill. Fiquei triste, mas não surpresa, porque, embora a série tenha alcançado números positivos, as críticas não foram as melhores e a qualidade também deixou a desejar. Pode ter sido por causa do orçamento de um caldo de cana e um pastel? Com toda certeza, mas infelizmente a falta de verba prejudicou a qualidade da série. O problema é que First Kill virou uma espécie de bode expiatório.
Eu fiz um post no instagram sobre esses cancelamentos e citei várias séries, mas o único argumento das pessoas que relativizavam o que eu falei era basicamente o seguinte: “First Kill era ruim mesmo e merecia ser cancelada”. Eu já acho meio indelicado dizer que uma série merecia ser cancelada porque, além de toda obra ter fãs, também existe uma equipe inteira que vai ficar desempregada. Mas esse argumento também é frágil porque qualidade não é fator decisivo para um cancelamento. Não é possível que Gypsy, Everything Sucks, I Am Not Okay With This, Caçadoras de Recompensas, The Wilds, Paper Girls, Warrior Nun e tantas outras séries fossem todas ruins. Não é possível e não é verdade. Gosto é, sim, uma questão pessoal, e o meu gosto não é parâmetro de qualidade. Nem o seu e nem o de ninguém. Eu posso odiar um livro, por exemplo, e achar ele chato ou monótono. Posso até detestar a história e, mesmo assim, compreender e admitir que a obra é interessante em termos narrativos e literários. O contrário também pode acontecer: a gente pode gostar de algo e, mesmo assim, questionar sua qualidade (não disse que amei First Kill? Pois é!).
Isso serve para qualquer obra, e eu poderia destacar pontos positivos de todas as séries que eu citei até agora. Escolhi enaltecer Warrior Nun em específico porque, como todo mundo sabe, essa é uma das minhas séries preferidas.
Eu penso que, se não fosse o preconceito de que séries sáficas são inferiores, muitas pessoas conseguiriam admirar Warrior Nun, porque a obra tem um roteiro criativo, uma fotografia maravilhosa e atuações impecáveis. Sem contar que existem diversas produções, com orçamentos muito maiores, que não conseguem reproduzir cenas de ação como as de Warrior Nun. Além disso, os efeitos especiais eram ótimos – só aquela asa da Lilith já era justificativa boa o suficiente para garantir uma terceira temporada.
E eu nem sei se eu consideraria Warrior Nun uma série sáfica. Esse é outro problema que costuma me incomodar. The L Word, ou mesmo Heartstopper, são duas obras completamente diferentes, mas ambas retratam a vida de pessoas LGBT. Esse é o foco narrativo dessas duas histórias! E é extremamente importante que essas obras existam. Mas, na minha opinião, nem toda obra com personagens LGBT deveria ser considerada uma obra LGBT. O enredo de Warrior Nun, por exemplo, não é sobre a sexualidade das personagens. É evidente que essa também é uma questão que atravessa a vida das protagonistas, mas o foco narrativo é completamente outro. Só que eu tenho a impressão de que toda obra que inclui personagens LGBT é colocada automaticamente nessa caixinha, como se só a gente pudesse consumir ou como se só a gente fosse gostar dessas histórias – e isso não é verdade. Aliás, eu nem acho que uma obra como The L Word ou Heartstopper sejam feitas exclusivamente para o público LGBT.
Eu já vi séries que só tinham personagens heterossexuais, como Dexter, e eu gostei delas – Dexter, inclusive, foi por muito tempo minha série preferida. Então o contrário também pode acontecer, e deveria acontecer (embora eu ache bem estranho uma obra só incluir personagens brancos e heterossexuais porque não é verossímil, afinal de contas, a vida não é assim). Enfim, o que eu quero dizer é que me incomoda o fato de que uma série como Dexter NUNCA será considerada uma série heterossexual porque esse conceito nem existe. Ela será descrita como uma série sobre um serial killer, uma série sobre investigação ou uma série de ação. Enquanto Warrior Nun provavelmente será resumida a uma série sáfica (e quero deixar evidente que tenho muito orgulho desse conceito. um brinde às séries sáficas! porém, há questões a considerar…).
Mas, voltando aos cancelamentos, se qualidade não é um fator determinante, vamos passar ao segundo ponto: a crítica técnica. A segunda temporada de Warrior Nun teve mais de cinco mil avaliações no Rotten Tomatoes e tá com 100% de aprovação da crítica e 99% de aprovação do público.
Esse desempenho é impressionante porque, de acordo com a Forbes, isso significa que Warrior Nun é, de longe, a série original da Netflix mais bem avaliada no Rotten Tomatoes.
Em comparação com outras séries do streaming, como Wandinha, que saiu na mesma época de Warrior Nun, fica difícil entender por que a história da nossa Jesus bissexual foi cancelada. A série estrelada por Jenna Ortega (Jenna, eu te amo e nada disso aqui é pessoal) foi avaliada no Rotten Tomatoes por mais de 5 mil pessoas, com aprovação de 86% do público e 71% da crítica.
É evidente que o Rotten Tomatoes é só um termômetro de avaliação, e não dá pra dizer que Warrior Nun fez mais sucesso do que Stranger Things ou Wandinha, por exemplo. Aliás, é até complicado se basear em sites como Rotten Tomatoes ou IMDB, porque muitas vezes rolam campanhas de boicote a algumas produções, como aconteceu com o segundo jogo de The Last Of Us e com o terceiro episódio da adaptação. Mas, na minha opinião, isso só reforça o potencial de Warrior Nun porque, apesar de também ter um relacionamento LGBT na história, a série recebeu mais avaliações que muitas séries consagradas (e sem representatividade LGBT) e também teve a maior aprovação entre todas elas.
Se você estiver pensando que não é possível avaliar a qualidade de uma obra só por sites como o Rotten Tomatoes, eu gostaria de dizer que você tem toda razão. Mesmo assim, ignorando essas plataformas, a repercussão de Warrior Nun foi surpreendente. Saíram matérias elogiando a série em vários veículos, como Washigton Post, BuzzFeed, Time e Forbes.
Se não é uma questão de qualidade e crítica técnica, a última justificativa plausível para um cancelamento, na minha opinião, seria falta de público. Mas, quando olhamos para as estatísticas, para as horas assistidas de Warrior Nun e para o tempo que a série ficou no top 10 da Netflix, fica um pouco difícil entender por que ela foi cancelada. Eu não estou dizendo que Warrior Nun é uma das séries mais assistidas da Netflix. É claro que não! Se fosse, ela não teria sido cancelada. Só que eu tenho a impressão de que hoje as plataformas de streaming lançam muitas séries e esperam que todas elas sejam um fenômeno de audiência em pouco tempo e sem investimento em divulgação. Nem toda série vai ser um hit, assim como nem todo filme é um sucesso de bilheteria e nem todo livro é um best seller.
Wandinha e Warrior Nun foram lançadas praticamente na mesma época, e é evidente que uma série sobre a Família Addams tinha tudo para ser um sucesso. Além de já ser uma história conhecida, a Netflix investiu na divulgação da série. Warrior Nun, por outro lado, foi cancelada um mês depois do lançamento da segunda temporada. Não deu tempo nem de nossas freiras guerreiras conquistarem um novo público nem de as próprias pessoas que viram a primeira temporada descobrirem que a segunda já estava disponível.
É fato que as plataformas de streaming provocaram uma mudança muito positiva no cenário audiovisual porque elas abriram espaço para obras diferentes, mais diversas e representativas. Vale lembrar, inclusive, que o primeiro grande sucesso da Netflix foi justamente Orange is The New Black, uma série protagonizada por mulheres, por sáficas e com representatividade negra e latina. Só que alguma coisa aconteceu nos últimos anos, e eu não sei exatamente o que foi. Eu só sei que hoje a gente já começa a assistir a uma série com medo de que ela seja cancelada. E, mesmo quando ela não é cancelada, parece que nos bastidores rola uma batalha para ela ser renovada, como aconteceu com A League of Their Own – e nem adiantou, porque ela entrou para a lista de séries canceladas, infelizmente. E olha que eu nem gravei vídeo de A League of Their Own, então essa culpa eu não posso carregar. Também não gravei vídeo sobre Willow, e a série não terá uma segunda temporada.
Não existem muitas semelhanças entre essas duas séries a não ser o fato de que ambas têm protagonismo feminino e sáfico. Coincidência? Sinceramente, não sei.Eu tenho a impressão de que o enterre seus gays foi substituído para cancele suas sáficas. Acho até bem curioso pensar que Warrior Nun foi injustamente acusada de queerbaiting na primeira temporada, mas, mesmo assim, ela foi renovada. E então, logo depois de confirmado o relacionamento entre Ava e Beatrice, a série foi cancelada. Nessas horas, eu começo a acreditar mesmo em teorias da conspiração porque não é possível tamanha coincidência. A gente não pode ignorar que a arte e a cultura influenciam a sociedade, e não me parece coincidência que essa onda de cancelamentos esteja crescendo ao mesmo tempo em que crescem também ideologias conservadoras e de extrema direita ao redor do mundo. Eu tenho pensando muito sobre como o capitalismo cooptou nossas bandeiras, e até nossas existências, enquanto elas davam lucro, mas agora talvez a diversidade não seja mais assim tão rentável.