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Onda conservadora e o fim das políticas de diversidade

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Agosto começou, mas eu ainda estou pensando sobre junho porque aquele foi o pior mês do orgulho LGBT dos últimos anos. Eu fiquei semanas tentando entender o motivo dessa minha sensação e eu não sei explicar direito, mas simplesmente não parece que 2025 teve um mês do orgulho. Em outros anos, eu sentia que a nossa existência era relevante e merecia ser celebrada, nem que fosse pelo menos durante um mês. Saíam matérias nos jornais e nas revistas, as marcas mudavam seus logos para as cores do arco-íris e tinham muitas campanhas publicitárias com pessoas LGBT. Eu não acho que esse tipo de ação mudou a realidade da nossa comunidade, porque o que muita gente chama de pink money é justamente como o capitalismo funciona: quando as nossas pautas eram lucrativas, elas foram usadas pelas grandes corporações; e agora que o contexto social e político não tá nada favorável para as pessoas LGBT, a gente sumiu da publicidade e das políticas de diversidade.

Eu também não acho que uma revolução social seria promovida pelas grandes corporações, mas esse silêncio no mês de junho é um reflexo do atual contexto político e dessa grande onda conservadora que está rolando em diversas partes do mundo. Quando a gente fala em “onda conservadora”, eu penso: será que já vivemos algum momento que não fosse conservador? Pensando no Brasil, eu acho que o nosso país sempre foi marcado por violências sociais e pela LGBTfobia, mas houve um tempo em que essas discussões estavam sendo feitas na internet, por exemplo, e até na televisão aberta.

Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg na novela Babilônia, de 2015

Eu não estou falando que a gente viveu um ótimo momento e que todas as pessoas aceitaram esses casais das novelas, por exemplo, mas esses debates estavam sendo feitos. Agora, percebemos uma mudança no próprio mercado e até nos discursos de muitos criadores de conteúdo: quem continua falando sobre feminismo, sobre autoaceitação, sobre gênero, sobre sexualidade, sobre corpos fora do padrão? Está cheio de influenciador se convertendo, subindo montanha e se alinhando a ideologias da extrema direita porque isso tá dando dinheiro.

E por falar em dinheiro, eu estava pesquisando que marcas patrocinaram a Parada LGBT de São Paulo de 2025, e todas – ou pelo menos quase todas – são empresas europeias, porque não estão sob a determinação das políticas de Donald Trump. Isso não quer dizer que na Europa a situação das pessoas LGBT esteja ótima. Na Itália, por exemplo, depois da eleição da primeira ministra Giorgia Meloni, que é da extrema direita, os direitos da nossa comunidade ficaram ameaçados. A Itália foi um dos nove países da União Europeia que não assinaram uma declaração pra promover políticas a favor das comunidades LGBT, junto com Hungria, Romênia, Bulgária, Croácia, Lituânia, Letônia, República Tcheca e Eslováquia. A Itália também começou a remover os nomes de mães não biológicas das certidões de nascimento de seus filhos, ou seja, só quem gestou a criança tem direito a maternidade. Enfim, a Giorgia Meloni é contra o casamento e a adoção de casais LGBT, porque ela defende a família tradicional italiana.

Uma postura muito parecida com a do ex-presidente Jair Bolsonaro, agora inelegível e em prisão domiciliar (como é bom escrever isso!). Por mais que Bolsonaro não tenha se reelegido, o seu mandato de quatro anos provocou um retrocesso muito grande em todas as discussões sobre gênero, raça e sexualidade, não só por causa do seu discurso, mas também por causa da sua gestão. Bolsonaro cortou 90% da verba disponível para ações de enfrentamento à violência contra mulher, colocou a Damares Alves no ministério dos Direitos Humanos e sucateou todas as políticas LGBT.

No final do ano passado, Trump foi eleito pela segunda vez nos Estados Unidos e, em poucos meses de mandato, ele prendeu e deportou muitos imigrantes, removeu termos como gay, lésbica, trans e bissexual dos sites da Casa Branca e de agências federais, cortou mais de US$ 125 milhões em financiamento para saúde LGBT e ainda instaurou a politica de que documentos deveriam ser emitidos com o sexo biológico das pessoas. A própria atriz Hunter Schafer gravou um vídeo, contando que precisou fazer um novo passaporte e que colocaram sexo masculino no seu documento, o que é um absurdo e mostra como pessoas ricas e famosas também estão suscetíveis a esse tipo de política discriminatória, até porque não existem privilégios quando se é LGBT numa sociedade LGBTfóbica.

Depois da eleição de Trump, muitas corporações abandonaram as suas políticas de diversidade e inclusão, inclusive as grandes empresas de tecnologia, tipo a Meta e até o Google. Algumas das consequências do fim dessa política de diversidade é que agora o discurso de ódio está liberado dentro dessas plataformas e é possível até que pessoas LGBT sejam rotuladas como “doentes mentais” sem que isso seja considerado ofensa aos direitos humanos.

O Google, que é responsável pelo youtube, também acabou com suas políticas de diversidade para se alinhar à política de Trump. Depois de encerrar o programa de inclusão, o Google removeu o Mês do Orgulho LGBT, o Mês da História Negra e o Dia da Memória do Holocausto do Google Agenda. Esses são retrocessos muito grandes porque, em 2020, o Google tinha a meta de ampliar em 30% a representação de funcionários negros, latinos e indígenas em seus cargos de liderança, uma meta que inclusive foi cumprida – e aí, cinco anos depois, eles acabam com toda e qualquer política de diversidade e inclusão.

Isso quer dizer que as grandes empresas de tecnologia e as redes sociais estão com diretrizes alinhadas à extrema direita: o Twitter, o Instagram, o Facebook, o Whatsapp, o Google e até mesmo o Youtube.

Essas mudanças nas diretrizes das plataformas me deixam muito preocupada porque ninguém está seguro na internet. Além disso, quando a gente trabalha com internet, a gente depende dos algoritmos das redes sociais. Essas empresas nunca foram transparentes em relação ao funcionamento desses algoritmos e agora, com essas novas políticas, como eu tenho garantia de que meu conteúdo vai chegar nas pessoas? E se eu falar ou escrever certas palavras, tipo lésbica ou LGBT, será que meu alcance vai diminuir? De que forma essas plataformas vão me proteger contra discursos de ódio? Provavelmente não vão.

Eu lembro que, há uns quatro ou cinco anos, eu recebi um convite do twitter, antes de ser vendido para o Elon Musk, para conversar com uma pessoa da empresa sobre como eles poderiam reforçar a segurança e proteger usuários contra discursos de ódio. Não foi uma ação paga. Foi apenas uma conversa interna mesmo, o que demonstra como existia uma preocupação das plataformas. Até porque, quando você tem funcionários que fazem parte de alguma minoria social, essas pessoas vão trabalhar para, pelo menos, minimizar a violência contra esses grupos oprimidos. Agora as diretrizes estão mudando, essas pessoas não tão mais sendo contratadas pelas grandes empresas porque é um projeto político – e tudo aconteceu muito rápido, coisa de três, quatro, cinco anos. 

Sei que esse texto e o vídeo que gravei sobre esse assunto parecem muito pessimistas, mas, na verdade, decidi falar sobre o fim das políticas de diversidade porque, além de ser uma questão séria e urgente, reforça a importância de fortalecer as nossas comunidades. A sociedade nunca foi, de fato, justa e acolhedora com as pessoas LGBT. Nossos direitos nunca estão realmente garantidos, porque sempre estamos ameaçados pelas mudanças na ordem social e política. Mas sempre estivemos aqui, vivendo, resistindo e construindo nossos afetos.

Ativismo e política

20/08/2025